PORTALEUCLIDENSE: ALGO AINDA PODE SER FEITO?

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

ALGO AINDA PODE SER FEITO?

Gostaria de falar de Euclides da Cunha como falava antes, dessa luz clara que tem quando amanhece, do cheiro de café que passa pelos caibros das casas e vai perfumando toda a cidade desde a Bela Vista até a Lagoa do Barro...
Queria falar dos “doidins” e das doidinhas que nos metiam medo mas nos enchia de uma alegria desmedida quando nos xingavam sem mais nem menos...
Quem sabe até mesmo falar das estradas de barro que nos desafiavam pelos lados da Ruilândia ou serra Branca...
Queria falar da época que nosso maior medo era do Romãozinho que aparecia uma vez ou outra...
Mas a poesia euclidense sumiu, está sob a fumaça escura e o pó branco; está sob a pele, nas narinas, nos pulmões dos que ainda não sabem muito da vida, mas dispensam conselhos e se acham dono do mundo...
Dezoito mortos esse ano em nossas ruas, em algum bar, em alguma casa, em um arbusto, num povoado, numa estrada... 
São canibais, são cobradores, são desafetos, são letais, são amigos... Quem são os que matam e por que o fazem assim, com tanta tranquilidade, com calma, como se fosse uma simples ida à padaria da Amélia?
Pelo Censo em 2016 estamos com aproximadamente 61.618 pessoas na cidade, um aumento de pouco mais de 5.300 desde o censo de 2010, um pouco mais de 800 pessoas por ano, é inadmissível que um crescimento populacional desse porte não represente um crescimento também em setores relevantes como saúde, educação e segurança.
Não vou falar do esporte, que com a falta de incentivo nossas seleções (seja a feminina ou a masculina), tem que fazer sacrifícios além do normal para chegar longe e perder por W x O...
Não é uma questão de indignação seletiva, nem de uma falácia partidária, que sangue não tem partido, não tem credo, não tem raça. 
Sangue suja as mãos de quem mata de quem se omite de quem não faz nada. 
Suja a mão de quem se senta na cadeira do executivo e do legislativo. 
Suja a mão de quem quer sentar nessas cadeiras e se sujeitam aos mandos e desmandos de um coronel ou de um que sem dissertações ou teses se autodenomina de maior instrução.
Existem culpados sim, seja por puxar o gatilho, seja por enfiar uma faca, seja por omissão, seja por conivência...
Existem mortos e enterrados e muitos por morrerem e serem enterrados sob as chuvas salobras dos olhos de mães, amigos, esposas, pais, filhos e uma gama de sofredores-eleitores, que ainda são importantes até dia 02.10.
O que mais nos deixa indignados é saber que algo pode ser feito, só isso, nada de mais, algo pode ser feito sim, enquanto há tempo.
Não conheço a prefeita, seu candidato, não conheço o outro nem seu vice, conhecia o Daniel e ouvi falar de tantos que tombaram em Euclides; o que eu sei é que enquanto apenas os pobres, negros, envolvidos com certas coisas que a sociedade (segura em suas casas de altos muros e portões de ferro) julga serem merecedores de sangrarem, pouco se fará...
Quando essa violência saltar-lhes os muros e puser seus portões ao chão, será tarde demais, já virão roubar suas flores, seus filhos e filhas e seus sangues serão tão vermelhos e dolorosamente densos, como os outros que já coagularam nas calçadas do Cumbe.

David Souza.


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