PORTALEUCLIDENSE: Relatório de inspeção pedia reparos na barragem da Vale

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Relatório de inspeção pedia reparos na barragem da Vale

Elaborado pela empresa alemã Tüv Süd, o documento atesta a estabilidade da barragem, mas aponta ressalvas

Responsável por inspecionar a barragem do Córrego do Feijão, que se rompeu no dia 25 de janeiro, deixando até agora 134 mortos e 199 pessoas desaparecidas (segundo o boletim mais recente, desta segunda-feira, 4), a empresa alemã Tüv Süd fez uma série de recomendações à Vale, empresa mineradora que controlava as instalações, para melhorar a segurança do reservatório.
As informações constam em dois relatórios de mais de 350 páginas produzidos em junho e setembro do ano passado, aos quais VEJA teve acesso. Entre as medidas, as principais eram a instalação de novos piezômetros, equipamentos que medem a pressão interna da barragem, em locais fora da cobertura dos outros já em operação; e a colocação de instrumentos que identificam abalos sísmicos na base da estrutura, que poderiam ser provocados por explosões em outras minas do complexo minerário da região e pelas obras de descomissionamento.


No dia do desmoronamento, quatro funcionários da empresa Geocontrole operavam uma sonda de perfuração no topo da barragem para a instalação dos novos piezômetros. A sonda foi tragada pelo rompimento do dique de contenção. Os quatro funcionários da Geocontrole só sobreviveram porque foram almoçar em outro local no momento do desabamento – a empresa iniciara as sondagens havia três semanas e seus funcionários ainda não tinham autorização para almoçar no restaurante da mineradora. A Geocontrole perdeu dois funcionários no desastre de Mariana, em 2015, no rompimento da barragem do Fundão.

Os documentos da Tüv Süd estão assinados pelos engenheiros Makoto Namba e André Yum Yassuda, que foram presos na terça-feira, 29, sob suspeita de crime ambiental, falsidade ideológica e homicídio qualificado com dolo eventual (quando se assume o risco de causar algum dano mesmo sem ter a intenção de cometê-lo). O advogado deles, Augusto de Arruda Botelho, afirma que os mandados de prisão temporária foram “desnecessários” e “ilegais” e que a juíza de Brumadinho não levou em conta as ressalvas e recomendações feitas pelos engenheiros à Vale nas centenas de páginas dos dois relatórios. “O Ministério Público só apresentou a última folha do relatório (que atestava a segurança da barragem). Isso foi feito apenas para se ter uma pseudossensação de que se está fazendo alguma coisa”, disse ele. Botelho está entrando hoje com um pedido de habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça.


Nas conclusões, os engenheiros da Tüv Süd certificavam que a barragem estava em “condições adequadas” e cumpria a legislação vigente. Mas, além das recomendações, faziam algumas ressalvas: “Ainda são necessários desenvolvimentos, uma vez que análises de equilíbrio limite não consideram o comportamento tensão-deformação do rejeito, e é este que controla o fenômeno físico de liquefação”, diz o texto. A liquefação ocorre quando, por algum fator externo, geralmente uma vibração muito forte, a parede de contenção da barragem sólida fica mais líquida e desmorona – pelas imagens divulgadas na última semana, esta foi a principal hipótese levantada como causa do desastre.

VEJA

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