Maior inflação desde 2016 não muda projeções de muitos economistas para novo corte de juros


Muitos economistas ainda veem chance de um corte adicional dos juros ao avaliarem a aceleração do IPCA como pontual

SÃO PAULO – O ano de 2019 interrompeu uma sequência de dois anos do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), inflação oficial do Brasil, abaixo da meta de 4,25% estabelecida pelo Comitê Monetário Nacional (CMN). No ano, o índice ficou em 4,31%, o maior desde 2016, quando a inflação foi de 6,29%.
Em dezembro, a alta de 1,15% foi o maior resultado para o mês desde 2002, quando a taxa avançou 2,10%. Considerando todos os meses, o IPCA de dezembro foi o mais elevado desde junho de 2018, quando a greve de caminhoneiros levou o índice a um avanço de 1,26%.
Porém, apesar do resultado (que superou levemente as estimativas da Bloomberg, de alta de 1,08% na base mensal e 4,24% no ano), a maior parte dos economistas não mudou a projeção para a inflação no ano e para a Selic, ao mesmo tempo em que preveem desaceleração dos preços em 2020. Por outro lado, a avaliação é de que o resultado acima das expectativas deve reforçar o tom cauteloso adotado pelo Banco Central sobre as próximas decisões de juros.
O choque de preços das carnes foram responsáveis por boa parte do resultado da inflação oficial tanto em dezembro quanto no fechamento no ano. Se não fosse a forte alta da carne (de 18,06% apenas em dezembro), o IPCA teria sido de 3,54% em 2019. Ou seja, bem abaixo da meta.
Desta forma, por se tratar de algo pontual, refletindo o aumento das exportações para a China por conta da febre suína que assola o gigante asiático e que acabou encarecendo os preços por aqui, a preocupação sobre a aceleração dos preços não é algo tão presente na análise dos economistas.
“Os núcleos, que mostram a tendência da inflação, continuam bem comportados, com variação ao redor de 2,5%, Esperamos já em janeiro dissipação de parte importante do choque altista de carnes, sem sinais de contágio dos núcleos, reforçando a ancoragem da inflação”, avalia o Bradesco. Para 2020, a projeção do Bradesco é de um IPCA de 3,6%.
O Goldman Sachs avalia ainda que o desemprego ainda alto, as expectativas de inflação bem ancoradas e as perspectivas reduzidas para o crescimento real do PIB no curto prazo devem contribuir para manter a inflação bem ancorada, em nossa opinião. A baixa inflação de serviços básicos também deve proporcionar um cenário mais confortável para o Banco Central.
Entretanto, aponta, o Copom deve analisar cuidadosamente os próximos dados da economia a fim de determinar se o custo-benefício de cortes adicionais e moderados na Selic, atualmente em 4,5% ao ano, é justificado, avalia Alberto Ramos, economista para a América Latina do Goldman.
Por sinal, os economistas possuem visões diversas sobre quais são os próximos passos do Banco Central sobre a Selic neste ano, após constantes cortes. Porém, a avaliação de muitos especialistas é de que ainda há espaço para cortes marginais na taxa de juros.
O Morgan Stanley destaca que, apesar do núcleo de inflação ter subido de 3% para 3,1%, ele ainda está longe de ser uma preocupação para os formulares de política monetária. Com isso em mente, os economistas do banco avaliam que o BC está confortável em seguir com o seu ciclo de flexibilização, devendo cortar os juros em 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em 5 de fevereiro.
Na mesma linha, está o Bradesco, ao avaliar que a inflação deve desacelerar em janeiro e, assim, continuar em uma trajetória benigna, mantendo espaço para a política expansionista do Copom. “Avaliamos que há espaço para ajuste adicional da taxa de juros, para 4,25%, reconhecendo que o BC poderá adotar uma postura mais cautelosa nessa fase do ciclo de recuperação e dado o nível atual de juros reais”, apontou.
A XP Investimentos reforça que, apesar do resultado acima das expectativas reforçar o tom cauteloso adotado pelo Banco Central quanto à sua próxima decisão de juros, o entendimento é de que o BC ainda tem espaço para realizar mais um corte de 0,25 ponto na Selic. Na mesma linha, o JPMorgan também prevê um corte desta magnitude pelo BC.
Com uma visão destoante, o Credit Suisse aponta: a inflação mais alta em dezembro e a melhora recente no indicadores de atividade econômica devem reduzir a probabilidade do BC seguir com a sua política de afrouxamento monetário. Desta forma, os economistas do banco suíço mantêm a previsão de estabilidade da Selic em 4,5% ao longo do ano de 2020.
Cabe destacar que a mediana das projeções do último relatório Focus, divulgado toda segunda-feira pelo Banco Central, apontou para manutenção da Selic em 4,5% ao ano. Assim, vale ficar de olho: os próximos dados podem ser importantes para apontar se a autoridade monetária irá reduzir os juros no encontro do próximo mês. Se os dados da economia vierem fracos (como no caso da produção industrial também divulgada esta semana), os argumentos para um novo corte de juros podem ganhar força.

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