Portal Euclidense: Brasil é deixado de fora de aliança sobre acesso a tratamentos na OMS

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sexta-feira, 24 de abril de 2020

Brasil é deixado de fora de aliança sobre acesso a tratamentos na OMS


Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante entrevista coletiva em Genebra

A OMS realiza nesta sexta-feira uma reunião de alto nível com presidentes e lideranças mundiais para dar uma mensagem política de compromisso de que novos tratamentos para lidar com a pandemia chegarão a todos. O Brasil, que historicamente liderou o assunto de acesso a medicamentos, não participará e parte do governo sequer sabia do mega-evento, num sinal da irrelevância que a diplomacia nacional ganhou.
O encontro coordenado pela cúpula da OMS será liderado por Emmanuel Macron, presidente da França, com a participação de Bill Gates e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. A coluna apurou que presidentes e chefes de governo de outros países também estarão presentes, inclusive da Costa Rica e outros dois governos da América Latina.
O evento vai marcar um compromisso de que qualquer tratamento ou vacina que seja criada será alvo de um esforço internacional para que seja disponibilizada a todos os países. Um fundo de US$ 8 bilhões deve ser anunciado para atingir a distribuição de remédios e produção.
O assunto de acesso a remédios foi tradicionalmente uma bandeira de diferentes governos brasileiros. No início do século, aliado ao governo francês, o Brasil estabeleceu um mecanismo para permitir acesso a remédios aos mais pobres. Desta vez, Paris assume a bandeira sem a presença de governo brasileiro.
A iniciativa ocorre ainda para ocupar o vácuo político deixado pelo G-20, incapaz de chegar a um acordo sobre como lidar com a pandemia. No domingo, uma reunião de ministros da Saúde do grupo terminou sem um acordo depois que o governo americano vetou a declaração final que citava o reconhecimento ao papel da OMS.
OMS rebate Bolsonaro
Nesta sexta-feira, a OMS ainda rebateu as críticas do presidente Jair Bolsonaro contra Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde. Os comentários do brasileiro, segundo diplomatas em Genebra, aprofundaram o mal-estar entre a agência e o governo brasileiro.
Na noite de quinta-feira, numa live Bolsonaro tentou justificar o motivo pelo qual tem ignorado a OMS. "O pessoal fala tanto em seguir a OMS, né? O diretor da OMS é médico? Não é médico. É a mesma coisa se o presidente da Caixa não fosse da área. Não tem cabimento. Então, o presidente da OMS não é médico", afirmou.
Tedros é formado em biologia. Mas tem mestrado em Imunologia de Doenças Infecciosas pela Universidade de Londres, doutorado em Filosofia (Saúde) pela Universidade de Nottingham e é considerado especialista em operações e liderança em respostas de emergência a epidemias.

Tedros atuou ainda como Ministro da Saúde da Etiópia entre os anos de 2005 e 2012.

Questionada pela coluna, uma porta-voz da OMS saiu em defesa de Tedros. "Convido a consultar a biografia do Dr. Tedros", disse a representante, que aponta para a "forte experiência" do etíope em relação à saúde pública.
Além disso, a OMS aponta que a agência tem "alguns dos melhores especialistas" e insiste que "a força da OMS é poder "contar com milhares de especialistas para nos ajudar a guiar nosso trabalho".
A decisão de declarar uma emergência global, como ocorreu em 30 de janeiro, foi tomada com base na recomendação de um grupo de cientistas, alguns dos maiores especialistas em emergências sanitárias. Uma semana antes da declaração, esses cientistas se reuniram e não chegaram a uma conclusão. Tedros, assim, não declarou a emergência.
Além do grupo, dezenas de outros foram formados internamente na OMS para responder à crise, formulando estratégias. Num deles, quem participa é a presidência da Fiocruz.
Mas os ataques brasileiros não ocorrem de forma isolada. Nesta semana, o chanceler Ernesto Araújo publicou um texto em que alertava para o risco de que um plano comunista estaria sendo desenhado para usar a pandemia para fortalecer as entidades internacionais e, por meio delas, influenciar o mundo. Entre as entidades na ponta dessa suposta estratégia está a OMS, segundo o ministro.
Também criou mal-estar a manipulação que Bolsonaro fez de declarações de Tedros, para justificar sua própria política e que ia na direção contrária às sugestões da OMS.
Nesta semana, também chamou a atenção da OMS a recusa do governo brasileiro em se somar aos co-patrocinadores de uma resolução na ONU que, entre outras coisas, reconhecia o papel central da agência de Saúde na resposta contra a pandemia. O gesto foi tomado depois de uma pressão do governo americano para que seus aliados - Brasil, Hungria e Venezuela - se distanciassem da iniciativa apresentada e apiada por 179 dos 193 países da ONU.
Numa alfinetada ao governo, o diretor de operações da OMS, Michael Ryan, usou a demissão de Luiz Henrique Mandetta para agradecer o então-ministro por seus serviços e insistiu sobre a necessidade de que governos atuem com base em "evidências".
O Brasil ainda evitou questionar a suspensão de dinheiro por parte dos americanos para a OMS, o que promete atingir dezenas de programas de saúde pelo mundo.
Os ataques brasileiros, ironicamente, ocorreram no mesmo momento em que o escritório da OMS para as Américas, a Organização Panamericana de Saúde, fechou um acordo para despachar 10 milhões de testes para diagnóstico de COVID-19, comprados pelo Ministério da Saúde do Brasil via Fundo Estratégico da agência.

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