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quarta-feira, 24 de junho de 2020

Heleno contradiz Bolsonaro em inquérito sobre interferência na PF


O ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, afirmou à Polícia Federal que o presidente Jair Bolsonaro nunca teve "óbices ou embaraços" para nomear e trocar nomes da equipe de sua segurança pessoal no Rio de Janeiro ou em outro local. A declaração do ministro contradiz o argumento do presidente de que, na reunião ministerial do dia 22 de abril, gravada em vídeo, suas declarações referiam-se a dificuldades na troca de sua segurança pessoal, e não sobre tentativa de mudança no comando da PF do Rio. No vídeo da reunião, Bolsonaro reclama de relatórios de inteligência da PF e chega a dizer expressamente que iria "interferir" nos órgãos de inteligência, olhando em seguida para onde estava sentado o então ministro da Justiça Sergio Moro. O vídeo foi citado pelo próprio Moro como prova das interferências de Bolsonaro na PF.

"Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro oficialmente e não consegui. E isso acabou. Eu não vou esperar foder minha família toda de sacanagem, ou amigo meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence à estrutura. Vai trocar; se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode trocar o chefe, troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira", afirmou Bolsonaro, durante a reunião ministerial.

Na avaliação de investigadores que viram o vídeo, apesar de usar a palavra "segurança", Bolsonaro estaria se referindo ao seu desejo de trocar o superintendente da PF do Rio. O presidente havia tentado fazer essa troca no ano passado para emplacar um nome escolhido por ele, mas recuou após sofrer resistência interna da PF. A versão da defesa do presidente é que, nessa frase, ele não teria expressado intenção de interferir na PF, mas sim uma insatisfação com sua segurança pessoal.

O ofício assinado por Heleno contradiz a versão da defesa de Bolsonaro. O documento do ministro foi enviado em resposta a um pedido de informações da PF. "Não houve óbices ou embaraços. Por se tratar de militares da ativa, as substituições do Secretário de Segurança e Coordenação Presidencial, do Diretor do Departamento de Segurança Presidencial e do Chefe do Escritório de Representação do Rio de Janeiro foram decorrentes de processos administrativos internos do Exército Brasileiro", escreveu Heleno.Questionado pela PF se a Presidência forneceu equipe de segurança a amigos de Bolsonaro, ferindo a lei, o ministro afirmou que não.

No ofício, Heleno informa que, em 31 de março deste ano, foi efetivada uma troca no cargo de diretor do Departamento de Segurança Presidencial da Secretaria de Segurança e Coordenação Presidencial. Também informa que, em 2 de março deste ano, foi feita uma troca no chefe do Escritório de Representação, na cidade do Rio de Janeiro, da Secretaria de Segurança e Coordenação Presidencial do Gabinete de Segurança Institucional. Essas trocas também confirmariam que Bolsonaro não tinha dificuldades para mexer na sua equipe de segurança, ao contrário do que apresentou como justificativa.

As declarações do ministro foram prestadas no âmbito de um inquérito em tramitação no STF, aberto a pedido do procurador-geral da República, Augusto Aras. Em ofício enviado na sexta-feira ao ministro Celso de Mello, relator do inquérito, a delegada Christiane Correa informou  que "nos próximos dias torna-se necessária a oitiva" do presidente da República sobre as suspeitas de interferência política na PF.

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