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quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Defensor da privacidade e a mente por trás do Signal. Quem é Moxie Marlinspike

De uns dias para cá, intensificado pelas mudanças na política de privacidade do WhatsApp, o Signal vem despontando como uma alternativa mais segura ao aplicativo mais popular do mundo. Até então desconhecido pelo público geral, Signal ganhou fama quando figuras como o ex-analista da NSA, Edward Snowden, confessou a predileção pelo app aos 4,5 milhões de seguidores no Twitter.

Elogiado por especialistas e pesquisadores em segurança da informação e detestado por órgãos governamentais, o aplicativo foi criado por Matthew Rosenfeld, mais conhecido por Moxie Marlinspike, que há anos advoga em nome da privacidade online. No currículo, o empreendedor americano coleciona a criação de sistemas de segurança para o Twitter, Skype e para o próprio Facebook.

O “engenheiro de software, hacker, marinheiro, capitão e construtor naval”, como próprio se descreve, poupa palavras em entrevistas, discreto, revela pouco de si – informações pessoais são raras (não se sabe, por exemplo, sua idade), e apenas sua carreira no setor da tecnologia é pública.
Carreira

Em 2010, ele fundou a empresa sem fins lucrativos Open Whisper Systems, posteriormente comprada pelo Twitter, que o tornou chefe de segurança de produto da rede social. Quatro anos depois, ao lado do engenheiro de criptografia Trevor Perrin, criou o Signal Protocol – um sistema que fornece criptografia ponta a ponta para mensagens de texto e chamadas de voz e vídeo.

O protocolo, que mais tarde se tornaria a base do app Signal, foi usado para aprimorar a segurança do WhatsApp, Facebook Messenger, e o Allo, do Google. “Muito antes de sabermos que se chamaria Signal, sabíamos o que queríamos que fosse”, conta Marlinspike no blog da sua empresa.

Perfil de Moxie Marlinspike no Instagram
“Em vez de ensinar criptografia ao resto do mundo, queríamos ver se poderíamos desenvolver uma criptografia que funcionasse para o resto do mundo. Na época, o consenso da indústria era que a criptografia seria inutilizável, mas começamos o Signal com a ideia de que a comunicação privada poderia ser simples”, comentou o empreendedor.
Criptografia robusta

“A missão da Signal sempre foi tornar a criptografia ponta a ponta o mais onipresente possível, ao invés de um sucesso comercial”, disse Marlinspike à revista The New Yorker. Sem fins lucrativos, a organização criada pelo hacker funciona inteiramente por doações. O produto da sua criação tem código base aberto, ou seja, está disponível para qualquer pessoa baixar, editar, melhorar e comentar.

A criptografia criada por Marlinspike em seus projetos é tão segura que só as pessoas nas duas pontas da conversa podem compreender o conteúdo da mensagem – nem mesmo autoridades conseguem quebrar o código que dá segurança à comunicação. “Em 2016, o governo dos EUA obteve acesso aos dados do usuário do Signal por meio de uma intimação”, lembra Marlinspike.

Os únicos dados disponíveis sob o poder da fundação eram a data de criação da conta e a data em que o número se conectou pela última vez aos servidores do Signal. “Não havia (e ainda não há) realmente nada para obter”, comemorou o engenheiro em um post no seu blog.

“Conheci Moxie em 2013, quando estava no WhatsApp, e estávamos trabalhando para adicionar criptografia de ponta a ponta ao aplicativo”, afirma o cofundador do WhatsApp, Brian Acton. “Fiquei impressionado com sua capacidade técnica e admirei sua paixão e compromisso absoluto com a proteção de dados e privacidade pessoal”.

Perfil de Moxie Marlinspike no Instagram

“Todos devemos ter algo a esconder”

Ainda 2013, quando o ex-analista da Agência de Segurança Nacional americana (NSA) Edward Snowden (que é um usuário do Signal) revelou programas de vigilância em massa nos EUA, Marlinspike escreveu em seu blog pessoal um artigo, no qual defendia que “todos devemos ter algo a esconder”. Para o engenheiro de software, a privacidade permite que as pessoas experimentem a violação da lei como um precursor do progresso social.

“Imagine se houvesse uma realidade distópica alternativa em que a aplicação da lei fosse 100% eficaz, de forma que qualquer infrator em potencial soubesse que seria imediatamente identificado, apreendido e preso”, escreveu Marlinspike. “Como as pessoas puderam decidir que a maconha deveria ser legal, se ninguém nunca a usou? Como os estados podem decidir que o casamento do mesmo sexo deve ser permitido?”, questionou.

Se esse discurso lembra o conceito de “crimideia”, da famosa obra “1984”, de George Orwell, ele não é por acaso: Marlinspike já usou a url “thinkingcrime.org” como seu endereço pessoal na web. Ao Wall Street Journal, o engenheiro contou que na adolescência estava mais interessado em quebrar softwares que criá-los. Ele passou a proteger os dados à medida que ficava mais preocupado com a vigilância.

O Signal foi fundado sob a premissa de que a vigilância em massa, especialmente por governos e corporações, deveria ser algo impossível. “Isso representa uma diferença fundamental em como pensamos sobre conceitos como privacidade, segurança e confiança. Não acreditamos que a segurança e a privacidade tenham a ver com o gerenciamento ‘responsável’ dos seus dados sob nosso controle, mas sim sobre como manter seus dados fora do alcance de outras pessoas – incluindo as nossas”, explica Marlinspike.

Via: The New Yorker/Wired/Wall Street Journal 

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