Portal Euclidense: Pandemia do crime: Valéria adoece com guerra das facções BDM e Katiara

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quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Pandemia do crime: Valéria adoece com guerra das facções BDM e Katiara

O receio de sair de casa se tornou uma realidade para os moradores do bairro

O barulho de disparos e da sirene da polícia já se tornou comum no bairro de Valéria, onde o terror se instalou entre os moradores que convivem e arriscam suas vidas em uma guerra que parece não ter fim. O Varela Notícias passou pelas principais ruas do bairro, que mesmo consideradas áreas mais “seguras” e movimentadas, há registros de linchamento e morte.

Entre moradores e comerciantes, os relatos são diferentes – por receio, uns negam crimes na região; outros assumem a realidade de medo e tensão. Ninguém quis se identificar.

O receio de sair de casa se tornou uma realidade para os moradores do bairro. Uma mulher, dona de uma padaria, contou que precisou baixar o preço dos pães para que as pessoas tivessem interesse em ir ao seu estabelecimento, já que o medo fez a população ficar reclusa. “A gente está tendo que fechar mais cedo por conta dos últimos acontecimentos. Tive que baixar o preço dos produtos, para que a população do bairro possa sair de casa. A situação está complicada”, disse.

Os caminhos de Valéria formam um verdadeiro labirinto para quem não conhece o bairro. Cada rua tem caminhos, escadarias e ladeiras que levam a lugares ainda mais escondidos. Alguns estabelecimentos, mesmo em funcionamento, possuem grades fechadas.

Apesar de afirmarem nunca terem sido testemunhas das barbaridades noticiadas, todos os comerciantes responderam apenas uma coisa em comum quando questionados sobre os maiores problemas do bairro: a criminalidade.

Não é a toa. Três facções criminosas dividem o poder sobre a venda de drogas em Valéria. A primeira a se instalar no bairro foi a Katiara. A chegada do BDM (Bonde do Maluco) nos últimos anos, no entanto, transformou o bairro em um cenário de guerra por busca de espaço.

Além das duas gigantes, a OP (Ordem e Progresso) também está presente em Valéria, mas é apontada por moradores como pacífica – além disso, segundo relatos colhidos pela reportagem do VN, os criminosos da OP não se envolvem na guerra constante entre Katiara e BDM.

Um comerciante do bairro chegou a afirmar ao VN que nunca foi assaltado em Valéria. “Trabalho no bairro hà 8 anos e nunca fui assaltado. O bairro como se diz no modo popular ‘favela’, o tráfico não admite arrombamento, roubo e nem mesmo estrupo. Eu venho de um bairro que eu pagava semanalmente segurança e na Valéria não existe isso”.

O mesmo chegou a citar que os líderes do BDM e Katiara eram amigos. “Os líderes do BDM e da Katiara são dois amigos de infância, só que eles brigaram e acabaram se dividindo. Com isso, um deles se juntou ao Comando Vermelho da Palestina, que também comanda o bairro da Cajazeiras. A briga é entre eles e também a própria polícia”.

O comerciante ainda chega a afirmar que nessa ‘Guerra de Facções’ em Valéria, o BDM acabou sendo fortalecido. “Nessa separação, houve um fortalecimento do BDM, que pegou criminosos da Palestina e chegou a tirar a cabeça de algumas pessoas. Mesmo com esses frequentes tiroteios eles conseguiram ficar no bairro”.

Enquanto isso, uma funcionária de uma escola chegou a falar os locais em que os tiroteios são mais frequentes. “Graças a Deus a gente não vê muito, nada que venha atrapalhar o funcionamento da escola. Esses casos acontecem mais na Baixa do Sossego, Rua das Palmeiras e da Bolachinha”. Durante o mês de dezembro, foram presenciadas diversas trocas de tiros no bairro, mas lojistas garantem que não houve toque de recolher.

“Recentemente aqui na Rua da Boca da Mata houve diversos tiros entre eles mesmo. Não tem toque de recolher para comerciantes. O policiamento ajuda a combater o tráfico, mas não sabemos até quando”.

Alguns chegaram a citar as explosões em alguns caixas eletrônicos. “Recentemente houve explosões, com isso a população agora precisa ir a outro bairro para fazer qualquer transação bancária”.

Por conta da frequência de tiroteios e confrontos entre facções rivais, a Polícia Militar chegou a implantar Bases Comunitárias Móveis. “Há mais policiamento na região por esses dias, que de certa forma pode ter ajudado”, disse uma moradora de Valéria.

Por outro lado, há pessoas que tiveram que se esconder dentro da loja, para não correr o risco de receber uma bala perdida durante os confrontos. “Recentemente presenciei um tiroteio e tive que fechar a loja. Fiquei aqui dentro assustada e só após uns 40 minutos, deu uma aliviada e eu conseguir ir para casa”, falou a comerciante em tom de desespero.

Uma moradora do local há mais de 20 anos chegou a revelar que se tornou comum ver jovens, ainda pela manhã, atravessando ruas com uma arma na mão ou na cintura. Em outro momento, ela se chocou ao ver um homem andando pelas escondidas ruas com um carrinho de mão coberto por um lençol. “Aquilo é um braço?”, ela questionou a uma amiga que estava presente na ocasião. No dia seguinte, um corpo foi encontrado em um matagal, não muito longe de onde havia visto o suspeito com o carrinho de mão pela última vez.

Durante a caminhada da reportagem pelo bairro, a chegada da Polícia não causou estranheza. A presença de agentes fortemente armados, preparados para qualquer ação criminosa, se tornou comum. O VN também conversou com um dos policiais. Questionado se haveria alguma operação naquele dia, o PM respondeu que se tratava apenas de uma ronda policial, para evitar que outra troca de tiros ocorresse entre as facções.

De acordo com uma fonte anônima, o final de linha do Derba é dominado pela OP, enquanto a região do Sossego pertence ao BDM. Katiara possui a maior dominância no bairro, mas suas áreas não foram especificadas. Também foi informado ao VN que Roceirinho, líder da Katiara, e Jibóia, líder do BDM, eram amigos, mas uma festa entre as facções desencadeou na disputa entre os dois grupos criminosos. Roceirinho não estava presente no evento.

“Roceirinho (Katiara), Jibóia (BDM) e Coroa (OP) foram criados juntos, então ninguém mexia um com o outro, eles não tinham problemas, mas há pouco tempo os caras do BDM foram lá nas Palmeiras pra uma festa e lá, eles se desentenderam. Jogaram até carro em cima do pessoal, os da Katiara começaram a atirar, inclusive baleou um [do BDM] na cabeça. Ele foi pro hospital e já está na área de novo, mas está inutilizado. Está cego de um olho e quase paraplégico”, contou uma fonte da SSP ao VN, em anonimato.

A situação teria sido a motivação para a disputa entre Katiara e o Bonde do Maluco. O BDM, de acordo com a fonte, está invadindo as áreas do Derba e Bolachinha, que são pertencentes a Roceirinho, além disso, pretendem ocupar a Palestina.

“Está a maior confusão, o pau tá quebrando aqui, há uns três dias teve um tiroteio em Bolachinha, foram duas horas de troca de tiro”, disse.

Questionado sobre a facção Ordem e Progresso, a fonte afirma que o grupo está “neutro” e está vinculado ao bairro de Águas Claras.

Procurada pelo Varela Notícias, a Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) não respondeu sobre a guerra entre facções no bairro.

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