Portal Euclidense: Por falta de medicamentos, Aristides Maltez vai suspender mais de 200 cirurgias de pacientes com câncer na próxima semana

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25/03/2021

Por falta de medicamentos, Aristides Maltez vai suspender mais de 200 cirurgias de pacientes com câncer na próxima semana

Cerca de 200 cirurgias deixam de ser realizadas por dia nos hospitais de Salvador 

Desde o início da pandemia na Bahia, em março de 2020, a prioridade de atendimentos nos hospitais são as pessoas com covid-19, principalmente as com sintomas mais graves. Com isso, os pacientes “não urgentes” foram deixados em segundo plano.

Aproximadamente 200 cirurgias por dia deixaram de ser realizadas em Salvador, segundo o presidente da Associação de Hospitais e Serviços de Saúde da Bahia (AHSEB), Mauro Adan – isso só nos hospitais privados. São aquelas chamadas de eletivas, como de apêndice, hérnia, diverticulite, entre outros.   

A doméstica Patrícia Pires, 43 anos, moradora de Cajazeiras, está esperando há mais de um ano para realizar a cirurgia no intestino. O drama começou em fevereiro de 2020, quando ela descobriu que tinha diverticulite e chegou a ficar oito dias internada no Hospital Municipal de Salvador (HMS), na Boca da Mata, após passar por uma colectomia. “Quase que morro, estourou uma tripa do intestino e por pouco os outros órgãos não foram atingidos”, conta Patrícia. Ela teria que ter voltado no mês seguinte para colocar de volta o intestino no organismo.   

Porém, por causa da pandemia, a cirurgia foi adiada e já são mais de 365 dias à espera do procedimento, usando uma bolsa de colectomia. “Hoje vim do médico e ela disse que não tem previsão para quando vai poder fazer a cirurgia. E é algo que incomoda bastante, fiquei com uma hérnia imensa no umbigo, começou a sangrar, porque acaba ficando abafado e molhando o intestino na hora da higiene, então fica essa secreção”, relata Pires.   

Só que até mesmo um decreto emitido pelo governo estadual proibiu que elas fossem feitas. A lei está vigente desde a última sexta-feira (19) e vai até a próxima segunda (29). A exceção, segundo a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), são os casos em que possa haver prejuízo aos pacientes, tais como cirurgias oncológicas, cardíacas e outras avaliadas pela equipe médica da unidade. Se o procedimento for em hospital dia, que não precise de internação, também está autorizado. Por conta da medida, houve queda de 75% das cirurgias que eram realizadas anteriormente no Hospital Santa Izabel. Já no Hospital Aeroporto, em Lauro de Freitas, cidade na Região Metropolitana de Salvador (RMS), a redução é de 50%.  

“Em função da pressão por leitos de covid-19, que reduziu o número de leitos disponíveis, os casos de cirurgias eletivas estão todos suspensos, estamos já há um mês assim. Só se faz aquelas que necessariamente precisam fazer, como os politraumas, algumas cirurgias cardíacas e oncológicas”, explica Mauro Adan. A decisão da não realização do procedimento é feita caso a caso. “Tudo passa por uma avaliação técnica e os que têm necessidade, os hospitais estão fazendo”, adiciona.  

O presidente da AHSEB aconselha que nenhum paciente abandone o tratamento, mesmo com o adiamento das cirurgias por conta do risco de agravamento da doença. “Essas pessoas precisam continuar sendo monitoradas para seus quadros de saúde não serem agravados e não virarem pacientes de urgência e emergência. Não podemos deixar de procurar as unidades de saúde, principalmente quem tem problemas cardíacos, hipertensão, diabetes. Procure seu médico, faça seus exames de laboratório, de imagem, e não abandone o tratamento para que não vire um quadro agudo”, aconselha. A previsão para que volte ao ritmo de normal é quando houver folga na ocupação de leitos, principalmente nas UTIs. 

Falta de “kit intubação” adia cirurgias no Aristides Maltez 

Não é só o decreto estadual que afeta a realização das cirurgias eletivas na Bahia. A falta de medicamentos também já compromete a realização dos procedimentos. O Hospital Aristides Maltez (HAM), em Salvador, vai começar a suspender a partir da semana que vem, em média, 40 a 45 cirurgias por dia. Ao todo, pelo menos 200 serão adiadas, todas de pacientes com câncer, que não são enquadrados como eletivos pela Sesab.  

Pelo menos dois relaxantes musculares já estão em falta na unidade: o Rocurônio e Dormonid, necessários para a intubação. Outros 10 anestésicos estão com estoques quase que esgotados. A admissão de novos pacientes também será suspensa na próxima segunda, até a quinta-feira (1/04).  

“A gente vinha conseguindo adquirir os anestésicos e relaxantes musculares, mas chegamos em uma situação que não conseguimos mais comprar, semana que vem já vai começar a faltar. Nenhum fornecedor tem para vender, nem por preço elevado, que já é péssimo. Ninguém faz cotação e alguns só tem para entregar final de abril. Chegamos quase que no fundo do poço. Tenho 30 anos de formado e isso que está acontecendo é uma coisa que nunca vi”, alerta o superintendente da Liga Bahiana Contra o Câncer (LBCC), entidade que administra o HAM, Humberto Souza.  

A medida de postergar essas cirurgias é algo que não pode ser feito por muito mais de uma semana, justamente pelos pacientes serem oncológicos. “Quando mais cedo operar paciente de câncer, melhor, mas a gente acha que uma semana não vai prejudicar tanto os pacientes. Nosso medo é que não seja só uma semana, porque se for coisa de um mês ou dois, não dá pra esperar”, avisa o médico cirurgião.  

Se essa situação não for resolvida, o cenário pode ser catastrófico e todas as cirurgias terão que ser suspensas. “Se não resolvermos, vai ter que suspender tudo até resolver. E se essa curva de pessoas internadas e entubadas não cair, vamos ver 10 mil mortes por dia no Brasil”, projeta Souza. A falta desses remédios é pelo aumento de pessoas com covid-19, que antes conseguiam ser transferidos para hospitais de campanha. Como estes também estão lotados, não há para onde ir.  

Cidades do interior da Bahia chegam a ter 800 pacientes na fila de espera 

No Santan Casa de Cachoeira, a 132km de Salvador, são mais de 800 pessoas que aguardam para realizar uma cirurgia. “Desde o mês de abril, atendendo portaria e nota técnica da Sesab, as cirurgias eletivas foram suspensas, ficando na lista média de 300 pacientes aguardando. Nesses 10 meses de suspensão das cirurgias eletivas, estima-se em torno de mais 800 pacientes demandando cirurgias no hospital”, revela o provedor da Santa Casa de Cachoeira, Luiz Antônio Araújo.  

Em Ribeira do Amparo, no Nordeste baiano, cerca de 80 pessoas esperam por uma cirurgia. A fila nunca tinha passado de 15, segundo a diretora administrativa da secretaria de saúde da cidade, Antonilda Ferreira. “Já tem uns quatro a seis meses que estamos com essa dificuldade aqui na região. Desde o início da pandemia que diminuíram as vagas. O problema é que sempre acontece de eles entrarem em crise, aí vão para a unidade hospitalar, são medicados, melhoram, recebe alta, mas têm que aguardar porque não tem como fazer a cirurgia agora. E com certeza a situação vai agravando, é dor por cima de dor, a hérnia pode estourar, é sempre um perigo”, diz Antonilda.  

Umas das moradoras da cidade, de menos de 15 mil habitantes, que aguardam pelo procedimento é Edivânia Dias, 48. Após a descoberta de dois cistos no ovário, ela espera desde março de 2020 fazer a retirada. Ele não sabe dizer se são benignos ou malignos, mas reclama constantemente das dores. “Tem mais de um ano que tenho isso marcado, o médico disse que era para fazer cirurgia de emergência e até hoje nada. Sinto muita dor, no pé da barriga, na vagina, quando vou fazer o exame transvaginal me incomoda, quando vou ter relação, tem dias que não aguento porque dói bastante. E também quando me abaixo, dói muito do lado esquerdo, de um jeito que meu Deus do céu, fica parecendo que estou um o problema maior. Só sabe quem passa e quem sente”, desabafa Edivânia. Por agora, ela diz que não faria a cirurgia, se fosse possível: “Tô com medo de sair de casa, com medo dessa doença [covid-19]”.  

Como os hospitais de Salvador adotaram a medida 

No Hospital Aeroporto, a suspensão das cirurgias eletivas começou no final de fevereiro deste ano. Entre maio e junho de 2020, também for necessário adotar a medida. “A suspensão de cirurgias eletivas visa disponibilizar leitos para tratamento de pacientes com sintomas respiratórios, reduz risco de possível disseminação de vírus na unidade e otimiza estoque de materiais e medicamentos para reserva no momento atual”, explica a médica Eliane Noya, diretora técnica do Hospital Aeroporto. Ela também ressaltou que essa suspensão impacta financeiramente os hospitais, principalmente no cenário de elevado custo com materiais e medicamentos. 

O Hospital São Rafael e o Hospital Aliança disseram que os procedimentos só foram suspensos por conta do decreto do governo estadual. O Hospital Geral do Estado (HGE), o Hospital do Subúrbio e o Roberto Santos, como atendem urgências e emergências, não sofreram impacto da medida e o número de cirurgias continuou o mesmo. No Hospital Português e no Hospital Jorge Valente, apenas as oncológicas e intervenções cardiovasculares, além das cirurgias de urgência, permanecem ocorrendo desde 25 de fevereiro. Na unidade Day Hospital, do HJV, as cirurgias permanecem por se tratar de cirurgias de hospital dia.  

O Santa Izabel comunicou que “está priorizando os procedimentos mais urgentes” e os procedimentos menos graves estão sendo remarcados para dar lugar a cirurgias mais graves. “Uma comissão avalia caso a caso, levando-se em conta a questão da gravidade, do diagnóstico, do impacto, do critério de utilização de leitos e recursos, além de análise de prioridade”.  

No Hospital Municipal de Salvador (HMS), por orientação da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), as eletivas estão suspensas desde 22 de fevereiro até 4 de abril. As de urgência permanecem seguindo rigoroso protocolo de segurança, segundo a unidade. A SMS informou que suspendeu a realização no HMS para “evitar a exposição dos pacientes ao ambiente hospitalar – uma vez que os procedimentos não são urgentes -, bem como, para priorizar a utilização da estrutura de terapia intensiva para o tratamento da covid-19". 

O Teresa de Lisieux, gerenciado pelo Sistema Hapvida, disse que tem seguido a realidade local de e, no caso das” cirurgias eletivas, tem seguido as orientações do poder público, cumprindo sempre o seu compromisso com os beneficiários”. O Hospital da Bahia e o Cardiopulmonar não responderam ao CORREIO antes do fechamento da matéria. 
 

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