Portal Euclidense: Morte de Charlie Watts: a história do fã de jazz que virou estrela mundial do rock com os Rolling Stones

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24/08/2021

Morte de Charlie Watts: a história do fã de jazz que virou estrela mundial do rock com os Rolling Stones

O baterista dos Rolling Stones, Charlie Watts, morreu aos 80 anos, segundo a assessoria de imprensa do músico.

"É com imensa tristeza que anunciamos a morte de nosso amado Charlie Watts", afirma a equipe do baterista, em um comunicado.

"Ele faleceu em paz em um hospital de Londres, hoje cedo, cercado por sua família."

A nota afirma que Watts era "um querido marido, pai e avô" e "um dos maiores bateristas de sua geração".

O comunicado acrescentou: "Pedimos gentilmente que a privacidade de sua família, membros da banda e amigos próximos seja respeitada neste momento dificil".

A morte de Watts ocorre semanas depois de ter sido anunciado que ele não iria participar da turnê da banda nos Estados Unidos. Segundo a banda, ele estaria em recuperação de um procedimento médico não especificado. Watts já havia se recuperado de um câncer de garganta, em 2004.Ele era membro dos Stones desde janeiro de 1963, quando se juntou a Mick Jagger, Keith Richards e Brian Jones.

O trabalho de Watts era a base que escorava a música dos Rolling Stones. Ao mesmo tempo, para o baterista, tocar em uma banda que virou sinônimo de rock & roll não resultou na mesma "ego trip" vivenciada pelo vocalista Mick Jagger e o guitarrista Keith Richards.

Fã do jazz, Watts "disputava" com o ex-baixista Bill Wyman o título de membro menos carismático da banda; ele evitava os holofotes e raramente dava entrevistas.

Nascido em 2 de junho de 1941, em Londres, Watts vinha de uma família operária. Seu pai era motorista de caminhão, e ele cresceu em uma casa pré-fabricada para onde sua família se mudou depois de bombardeios alemães durante a Segunda Guerra terem destruído centenas de casas na região londrina onde moravam.

Um amigo de infância certa vez descreveu a paixão de Watts pelo jazz e lembra de escutar álbuns de artistas como Jelly Roll Morton e Charlie Parker no quarto do jovem.

Charlie Watts
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Jazz era a paixão original de Watts

Na escola, Watts desenvolveu o gosto e o talento pela arte. Formou-se na Escola de Arte Harrow e trabalhou como designer gráfico em uma agência de publicidade.

Mas seu amor pela música era a força dominante em sua vida. Ele havia ganhado dos pais um conjunto de bateria aos 13 anos, no qual ele tocava ao som de seus discos de jazz.

Até que ele começou a se apresentar como baterista em casas noturnas e pubs e, em 1961, recebeu de Alexis Korner o convite para tocar em sua banda, Blues Incorporated. Ali também tocava o guitarrista Brian Jones, que levou Watts para a então iniciante banda The Rolling Stones - que havia perdido seu baterista original, Tony Chapman.

'Traseiro de Mick Jagger'

O resultado daquele encontro inicial, segundo Watts descreveria mais tarde, foram "quatro décadas vendo o traseiro de Mick Jagger na minha frente".

A habilidade e a experiência de Watts são consideradas inestimáveis. Junto com Wyman, ele fazia um contraponto às guitarras de Richards e Jones e à performance de Jagger.

Os primeiros shows dos Stones muitas vezes acabavam em caos, enquanto jovens fãs escalavam o palco para abraçar seus ídolos. Watts muitas vezes se via tentando manter o ritmo da bateria com garotas presas a seus braços.

The Rolling Stones em 1964

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Rolling Stones em 1964; Watts costumava evitar os holofotes

Além de sua habilidade musical, ele encontrou utilidade também para sua experiência em design gráfico. Participou da confecção da capa do álbum de 1967, Behind the Buttons, e ajudou a criar os projetos de palco, que se tornariam cada vez mais importantes nas turnês.

Foi dele a ideia de promover a turnê de 1975 nos EUA com uma apresentação na traseira de um caminhão que se movia por Manhattan, em Nova York.

Ele lembrava-se de que bandas de jazz de Nova Orleans haviam usado dessa estratégia, que depois seria copiada também por bandas como AC/DC e U2.

Seu estilo de vida nas turnês contrastava com o dos demais integrantes dos Stones. Ele era conhecido por rejeitar as hordas de groupies que acompanhavam a banda nas viagens, mantendo-se fiel a sua esposa, Shirley, com quem havia se casado em 1964.

Ascensão e queda

No entanto, nos anos 1980, durante o que depois descreveria como uma crise de meia-idade. Watts viu sua vida descarrilar com bebidas e drogas, resultando em um vício em heroína.

"Fiquei tão mal que até o Keith Richards, abençoado seja, me pediu que me compusesse", ele contou certa vez.

Ao mesmo tempo, sua esposa também enfrentava o alcoolismo, e sua filha, Seraphina, havia se tornado uma jovem "rebelde", sendo expulsa de uma escola de prestígio por fumar maconha.

Charlie Watts Orchestra

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Ele manteve seu vínculo com o jazz com projetos como o The Charlie Watts Orchestra

Nesse período, a relação de Watts com Jagger também chegou a seu ponto mais baixo.

Um episódio famoso se desenrolou em um hotel de Amsterdã, em 1984, quando Jagger, bêbado, teria acordado Watts berrando ao telefone: "onde está o meu baterista?"

Watts respondeu com uma visita ao quarto do vocalista, onde lhe desferiu um soco e disse "nunca mais me chame de 'seu baterista', seu maldito cantor".

A crise durou dois anos e ele emergiu dela, sobretudo, com a ajuda de Shirley.

Vida

Dono de uma fortuna estimada em 80 milhões de libras (equivalente hoje a R$ 576 milhões) como resultado da duradoura popularidade dos Stones, Watts vivia com sua esposa em uma fazenda em Devon, na Inglaterra, onde criavam cavalos.

Ele também havia se tornado uma espécie de especialista em antiguidades, e coletava desde memorabilia da Guerra Civil Americana até carros antigos - o que é curioso, uma vez que Watts não dirigia.

Nos intervalos das turnês, Watts alimentava seu amor pelo jazz. Embora gostasse de toar rock e amasse seu trabalho nos Stones, ele diz que o jazz lhe dava "mais liberdade".

Sempre elegante - Watts costumava figurar em listas de homens mais bem vestidos -, ele se manteve com os pés no chão durante sua carreira em uma das bandas mais longevas da história.

"Dizem que é para ser sexo, drogas e rock e roll", ele disse uma vez. " Eu não sou bem assim"

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