Portal Euclidense: Lobista na mira da CPI recebia núcleo de Bolsonaro para passeios de lancha e churrascos

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13/09/2021

Lobista na mira da CPI recebia núcleo de Bolsonaro para passeios de lancha e churrascos

Mensagens enviadas à CPI da Covid revelam que o lobista Marconny Albernaz de Faria, indicado como intermediário da Need Medicines, mantinha relacionamento com o núcleo familiar e advogado de Jair Bolsonaro.

O material mostra eventos realizados na casa de Marconny, em Brasília, como churrascos e passeios de barco. O lobista também se dispôs a cuidar da agenda das pessoas do círculo da presidente, agendando consultas médicas e de salão de beleza.

As mensagens do app também mostram sua proximidade com Ana Cristina Valle, ex-esposa de Bolsonaro, o filho 04 do presidente, Jair Renan Bolsonaro, e a advogada Karina Kufa.

A Need Medications está no centro das investigações da CPI sobre suspeitas de irregularidades nas negociações para a vacina indiana Covaxin. O Ministério da Saúde decidiu rescindir o contrato de R $ 1,6 bilhão com a empresa para a compra de 20 milhões de doses do imunizante.

Procurada, Ana Cristina, que também é mãe de Jair Renan, não respondeu aos questionamentos da reportagem. Kufa disse em um comunicado que nunca escondeu sua amizade com Marconny, que, por sua vez, por meio de advogados, disse que as mensagens eram distorcidas.

A informação consta de conversas no WhatsApp, entre Marconny e pessoas ligadas ao Bolsonaro, obtidas pela CPI após quebra judicial de sigilo do lobista a pedido do MPF (Ministério Público Federal) do Pará. Folha teve acesso ao material.

Pelas mensagens, Kufa e o lobista se chamaram de amigos. Ela o conheceu várias vezes, frequentou a casa um do outro e agendou almoços em várias ocasiões.

A proximidade dos dois era tanta que a advogada até compartilhou uma foto do filho com o lobista no WhatsApp. As mensagens indicam que Kufa levou a criança a um evento na casa do lobista.

Em uma das mensagens, de maio de 2020, o advogado de Bolsonaro aceita o convite para um passeio de barco. “Você vai andar de lancha ???” disse Marconny. Kufa então responde com três mensagens: “Bom dia”; “Vamos lá!”; “Eu preciso tirar a tensão da minha cabeça.”

Maconny também marcou duas vezes um médico para o advogado e até disse que iria com ela a uma de suas consultas. “Agendei seu médico para amanhã às 17 horas. Vou com você !!!” afirmou ele em uma mensagem de junho de 2020.

A equipe de Kufa, em um comunicado, disse não negar sua proximidade com o advogado. Ela afirmou ainda que o advogado não tem relação com representantes da Necessidade e nunca ouviu o termo “lobista” associado a Marconny.

“Aparentemente, esse selo foi inaugurado na CPI. Ele é uma pessoa bem conhecida da área jurídica em Brasília”, disse a assessoria de imprensa.

Assim como Karina, a ex-mulher Bolsonaro era próxima do lobista. As mensagens indicam que Valle também almoçou na casa de Marconny em pelo menos uma ocasião.

Foi o lobista que a convidou, no dia 31 de agosto de 2020, para assistir ao casamento da advogada Anna Carolinna Noronha, filha do ministro e ex-presidente do STJ João Otávio Noronha: “Marque na sua agenda “; “Casamento da Filha de Min Noronha”; “Já conversei com o Renan”; “Eu quero que você venha”; “Vai ser toppp !!!”; “Só a nata do tribunal …. muito selecionada”.

O relacionamento próximo é evidente nas trocas de mensagens. O lobista até providenciou serviços de cabeleireiro e maquiagem para Valle. Ela até se arrumou na casa dele antes de ir para o evento.

“Os profissionais voltarão para casa aqui”, diz Marconny. “Isso vai arrumar você com Tati e Karina Kufa”, diz ele.

A ex-mulher do presidente também deu um passeio no carro do lobista para a festa de casamento. “Bom dia, minha querida, gostaria de saber se posso ir com você no carro porque o Renan tem consulta marcada às 16 horas e depois vai logo”, disse Valle, no dia 12 de setembro do ano passado.

Valle pediu ao lobista a ajuda de seu filho, mas sem dizer do que se tratava. A mensagem foi enviada em 14 de setembro de 2020, três dias antes de Marconny procurar Jair Renan para prosseguir com a abertura de um negócio.

Tal como Folha revelada, a empresa de Jair Renan, a Bolsonaro Jr. Eventos e Mídia, foi inaugurada com a ajuda do advogado.

De acordo com os diálogos, o lobista e Jair Renan começaram a abordar o assunto em 17 de setembro de 2020, quando Marconny escreveu para ele: “Vamos resolver suas questões contratuais !! Se preocupe com isso. Como eu disse a você, eu e William, estamos à sua disposição para ajudá-lo “, disse ele.

A mensagem é sobre William de Araújo Falcomer dos Santos, que Marconny representa na CPI da Covid. Jair Renan então respondeu: “Mostra irmão. Vou organizar com o Allan para a gente se encontrar e organizar tudo”.

Em seguida, o filho do presidente diz que precisa entrar com o processo de registro de marcas e patentes no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) e abrir o MEI como microempreendedor.

No mesmo dia, o lobista enviou mensagem a Santos, para marcar um encontro entre ele e o filho do presidente.

Frederick Wassef, advogado de Jair Renan, ressaltou que não existe relação comercial ou amizade, mas disse que o filho do presidente foi apresentado a Marconny por Santos.

“O Renan é uma pessoa pública e de vez em quando está em eventos, em festas e tem muitos conhecidos, é comum ele conhecer várias pessoas. Ele conheceu esse advogado no início de 2019 e não teve e nunca teve relacionamento com ele “, disse ele.

As conversas também expõem os pedidos de Marconny ao círculo íntimo de Bolsonaro. Ele pediu a ajuda de Valle para influenciar a escolha do defensor público geral da União em 2020.

Marconny também fez um pedido semelhante a Kufa. O lobista queria a ajuda do advogado para indicar uma pessoa para a diretoria do Instituto Evandro Chagas. As mensagens foram trocadas em 25 de maio de 2020.

“Em que dia podemos ver a situação do Instituto Evandro Chagas !?”, diz Marconny; “Temos que tirar as armas de lá logo.”

Então o advogado de Bolsonaro responde: “Agora”. Ele então diz “Mostrar”. Aí o advogado fala: “Vou conversar sobre isso agora”.

A equipe de Kufa disse que Marconny apresentou um currículo afirmando ser uma pessoa tecnicamente qualificada. A advogada, porém, afirmou que não deu seguimento ao pedido.

“Esse tipo de indicação é rotineiramente feito pelas pessoas, o que é natural. A decisão é sempre do presidente”, afirmou a assessoria de imprensa, em nota.

Marconnny também participa de alguns grupos do WhatsApp em comum com o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho mais velho de Bolsonaro.

Santos, advogado de Marconny, disse em nota que por causa da apreensão do celular do cliente em outubro de 2020, houve divulgação indevida e distorcida das conversas.

“Foram feitas distorções maliciosas em relação aos nomes da advogada Karina Kufa e Ana Cristina Valle”, disse a advogada. Segundo ele, “os dois não tinham nenhuma participação” nas atividades profissionais de Marconny.

Santos disse ainda que Marconny não negociou vacina com o Ministério da Saúde ou qualquer outra área do governo. Segundo o advogado, Marconny conversou com um colega, em maio de 2020, para discutir a possibilidade de viabilizar a venda de testes da Covid entre entidades privadas.

“Isso não dá a ninguém o direito de fazer acusações falsas. Não há referência nos diálogos ao dinheiro público. Não há irregularidade nas negociações entre as duas partes”, disse.

Em diálogos realizados pela CPI, Marconny discutiu, em junho de 2020, a venda de 12 milhões de testes rápidos da Need Remédios para o Ministério da Saúde.

A CGU (Controladoria Geral do Sindicato) apontou indícios de tentativa de interferir no processo de chamada pública de contratação com a ajuda de Roberto Dias, ex-diretor de Logística da pasta, em benefício da Necessidade.

O depoimento de Marconny está marcado para quarta-feira (15) na CPI da Covid. Na terça (14) é a vez de Marcos Tolentino da Silva. O empresário entrou no radar da comissão pela suspeita de ser sócio oculto do Banco FIB, empresa utilizada pela Need Medicines para oferecer carta de fiança ao Ministério da Saúde nas negociações para compra da vacina indiana Covaxin.

A comissão ainda não definiu quem vai depor nesta quinta-feira (16). O depoimento da advogada Karina Kufa foi agendado para esta semana. No entanto, ainda não há acordo entre os membros do comitê se ela será ouvida ou não.

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